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Já faz algum tempo que nos deparamos com mais um dos acontecimentos mais nefastos da atualidade estado unidense, mais um tiroteio em massa ocorreu no país no inicio de 2018, o atentado na escola Stoneman Douglas reabre espaço para as mesmas discussões nos noticiários, entre controle de armas e armamento de professores, liberdade e segurança conflitam, mas o ponto mais importante do debate parece ser deixado de lado. O que promove a ocorrência destes eventos?

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Os burocratas estão presentes em todas as áreas, não só nas repartições públicas estereotipadas com seus papeis, documentos e registros em três vias. Eles estão presentes até em agências de publicidade, onde a criatividade é matéria prima, e mesmo com as dinâmicas das notícias que não param de acontecer, as redações de jornais também estão cheias de burocratas. Já que estes não usam somente roupas sociais e ternos, todos os lugares possuem seus burocratas.

Não existem variações de pensamento entre os burocratas, pelo contrário, a padronização do pensamento é a principal característica não descrita nos livros sobre burocracia. Eles são loucos por padronização, descartam o diferente como imprestável, a fuga das regras é pecado mortal. Regras que na maior parte das vezes eles nem sabem porque surgiram, e pensam que somente a existência delas a fazem importantes. No final das contas, o burocrata é bastante crédulo.

Respeitam a autoridade acima de tudo, para eles a autoridade já é explicada e justificada por si mesma. Ou seja, se alguém está no poder é porque fez por merecer. Uma ordem é uma ordem e ponto final, questionar é quase imoral.

Reclamações são vistas como frescura. Direitos humanos, sindicatos, ou qualquer outra representação de oposição são sempre obstáculos. Os burocratas são alienados em sua própria realidade.

O burocrata é um depressivo, ainda mais no fim do ano, quando se dá conta que passou mais um ano de forma cinzenta na sua medíocre vida

No primeiro momento o nome do filme  pode parecer abstrato. Problema resolvido na primeira cena, onde Val (Regina Casé) dialoga com uma criança, Fabinho, filho dos patrões, e vimos que a empregada é privada da convivência com a própria filha, e Fabinho, por sua vez, privado da convivência com a mãe, questão problematizada pelo Menino ao perguntar a Val: Que horas ela volta? Por outro lado o título do filme pode gerar uma falsa sensação de que a história permeará a ausência dos pais na vida de Fabinho, e não a de Val, afinal o título do filme é sobre a perspectiva da criança.

Rapidamente nos é apresentado que Val é fruto do lulismo, o que pode gerar a ideia de um filme governista, a batalhadora e guerreira que trabalhando como doméstica consegue mandar dinheiro para criação da sua filha e comprar bens de consumo como um espremedor de laranja, um ventilador que segundo ela mesma “é de primeira classe”. Essa visão governista cai por terra no momento em que esses próprios bens de consumo adquiridos pela domestica são amontoados em seu minúsculo quarto de empregada, o sonho da casa própria é ainda distante. Para Val o minha casa minha vida ainda não fez diferença.

Apesar da perspectiva do filme não ser Fabinho, a relação entre ele e a empregada é muito explorada na primeira parte do filme, criando uma relação de 2ª mãe ou ama-de-leite. O já adolescente Fabinho faz parte de uma família de rentistas sustentada pela herança recebida pelo seu pai, mas não vê contradição nenhuma em gostar de Ramones e Joy Division. Explicitando aí um dos pontos centrais da Classe A brasileira: A não-meritocracia da sua riqueza e sua hipocrisia cega aos problemas sociais brasileiros.

O conflito do filme começa quando Val descobre que Jéssica, sua filha que não via a maus explicados 10 anos, pede abrigo a mãe para fazer vestibular em São Paulo. A distância da filha é explicada, afinal, Val não conseguiria ganhar o que ganha como doméstica no nordeste, entretanto o que a teria desmotivado a realizar visitas periódicas à filha? Será que existe alguma culpa difícil de lidar por ter deixado a filha pra tentar uma vida em São Paulo? Ou simplesmente isso não foi uma prioridade na vida dela? Enfim, ou essa é uma lacuna do filme ou essa é uma questão da própria personagem que não consegue compreender seus sentimentos, os enterrando seu interior.

Jéssica, talvez por não ter sido criada pela mãe, ou por ter tido contato, segundo ela mesma, com um professor de história e um grupo de teatro que abriram suas perspectivas, não possui impregnada nela o sentimento de resignação e conformismo da mãe, quer fazer vestibular para mesma universidade que o filho da patroa quer, a FAU (faculdade de arquitetura e urbanismo da USP) escolha está vista como petulância desde o primeiro contato com a família que emprega a mãe, ou até mesmo como sonho surreal, como se ela dissesse que quer ter uma banda de rock ou se tornar bailarina do Bolshoi.

A cena de apresentação possui ainda uma frase peculiar de Fabinho: algo como “ela também fala engraçado”. A menina oferece uma cocada que é aceita por Carlos e rejeitada por Bárbara, o que prenuncia a tensão latente que em seguida explodirá entre o casal. Mas se a chegada da menina intensifica as tensões internas da família, a observação de Fabinho toca num ponto de consenso mais amplo. O comentário é preconceituoso, revela uma postura compartilhada e silenciosa em torno de Val (“também”) e a ausência de dignidade de sua fala (“engraçada”). Nesse sentido, Jéssica é apenas uma confirmação, não um novo jogador que leva à reflexão; e o primeiro gesto por parte da família é enquadrá-la nos esquemas iniciais de compreensão que, por não compartilhar do sentimento de resignação e conformismo, serão sistematicamente desafiados por Jéssica.

O acordo inicial de Bárbara, a patroa, com Val era de que Jéssica seria hospedada, mas dormiria num colchão no chão do quarto de empregada. Acordo que foi quebrado por Carlos, o patrão, que visivelmente se interessa fisicamente por Jéssica, e assim oferece a ela uma vaga no quarto de hóspedes da casa, e ainda tem o cuidado de apresentar a casa inteira para, agora hóspede, Jéssica. Todo esse processo de apresentação da casa é acompanhado por Fabinho, que preocupando com o fato de ainda ser virgem a vê como uma chance de resolver essa questão. O interesse dos dois homens da casa na filha da empregada desenha que chamarei de “Machismo de classe” onde ricos acham que pessoas de classes pobres se interessaram fisicamente por eles pelo único e exclusivo fato de serem ricos.  Lógico que tudo isso vem junto de bastante perseguição de Bárbara que não aceita o espaço ganho por Jéssica.

A entrada de Jéssica na história expõe um problema óbvio, sua mãe conhece mais Fabinho do que sua própria filha. Jéssica fica feliz por não mais dormir no quarto de empregada com a mãe, e Fabinho, sem sono, sai da sua cama para receber carinho da empregada no minúsculo quarto. Em diversos momentos esse carinho se mostra maior entre Fabinho e Val do que entre Fabinho e Bárbara, sua mãe. O adolescente chega em determinado momento a dizer “eu te amo” à empregada, o que nunca foi dito à mãe. Mas não se ilude, a frase “é como se fosse da família” só diz que todos a amam como se ama um cachorro. Quem possui cachorro sabe como é, nós o amamos, adoramos brincar com eles, adoramos fazer e receber carinho, mas não temos nenhum problema em deixa-los sozinhos quando vamos trabalhar ou em um lugar desconhecido quando vamos viajar por duas semanas. E na casa, apesar de amarmos eles, os cachorros geralmente possuem um lugar da casa para eles afastado das pessoas. A relação da família com Val exatamente essa.

A problemática apontada por Que horas ela volta? incomoda as elites brasileiras. Me pergunto quantas “Vals” a própria Regina Casé emprega, lógico que em momento algum o fato da atriz e apresentadora não ser a própria personagem (tanto no filme quanto no programa esquenta) diminui a validade do que ela expõe. Ela não é a primeira, nem será a última hipócrita do mundo. Sinal claro do incomodo desse filme é de ter sido lançado primeiro na Europa e no EUA do que aqui mesmo no Brasil, inclusive na América Latina, o filme não foi publicado em nenhum outro país. Talvez isso seja por uma falta de adesão do público com a questão, como se a personagem bastante caricata da Regina Casé representasse somente uma comédia e não uma crítica social, ou essa crítica social fosse menor.  De fato, o filme não foi feito para brasileiros, característica que pode inclusive levar o filme a ser indicado ao Oscar (provavelmente para categoria de “melhor filme estrangeiro”). A indicação não é novidade para a diretora e roteirista Anna Muylaert, também responsável pelo filme O ano em que meus pais saíram de férias que no ano de 2006 foi pré indicado ao Oscar. Torcemos por grandes prêmios, pois merece.

A rotina é imperativa quando lidamos com nossas obrigações, adotamos costumes repetitivos para lidar com o dia a dia, de maneira consciente ou não estes costumes que parecem fornecer o máximo de conforto possível sem atrapalhar a produtividade, dessa forma, a rotina parece ser benéfica. Agora convido ao leitor a pensar em seu passado recente e buscar diferenciar os últimos dias mais mornos ou normais de seu mês, acredito que imagens genéricas do caminho para casa ou um almoço em seu restaurante de sua preferência estejam brotando de sua memória, mas não se esqueça, quero que você se lembre do comum, no que rege a mim, acho difícil retirar muita informação daquilo que vivemos repetidamente.

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Pensamento e ócio são indissociáveis.  O desenvolvimento do pensar só é possível a partir da reflexão, e reflexão só existe com tempo livre. Ócio é lazer, descanso, passeio, mas principalmente pensar. Já o negócio é o não-ócio, a negação do ócio. Podemos encarar que o negócio sem o ócio não é nada produtivo, não é preciso muito conhecimento para saber que agir sem pensar não é uma boa ideia.

Para Platão, o ócio era o princípio da Filosofia, em conexão com a Verdade (Verdade com V maiúsculo mesmo) e a liberdade, porque só pode-se dedicar a Filosofia quem tem tempo para isso. Aristóteles definiu o confronto entre ócio e negócio assim: “Somos ativos a fim de ter ócio”, daí a felicidade que todos os trabalhadores e trabalhadoras têm ao receberem um aviso de férias.

Insistem que o conhecimento já não é produzido do ócio, e sim do processo produtivo. Assim, nossa relação com a natureza mudou, queremos dominá-la, explorá-la, adaptá-la às nossas necessidades, já o ócio pretende contemplá-la.

Hoje, o ócio simplesmente não tem espaço. E até a breve alegria de trinta dias anuais dos trabalhadores, isso para os que não vendem parte das férias, se tornou um negócio, milionário por sinal. A industria do turismo não deixa que nosso ócio seja só ócio. A humanidade conseguiu o improvável, industrializar o ócio.

Mas não devemos encarar a necessidade de ócio como se ele fosse alcançado somente nas férias, ou finais de semanas, quanto na realidade, diariamente o tempo livre deve ser alcançado, tempo para pensar em problemas do trabalho, em contextos, em situações.  Sem ócio, nos tornamos meros repetidores. Talvez nós já sejamos apenas uma cópia, de uma cópia, de uma cópia, de uma cópia …

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