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Man vs Snake: The Long and Twisted Tale of Nibbler

Man vs Snake é um documentário que acompanha a trajetória de um homem com mais de quarenta anos tentando ultrapassar o recorde de Nibbler, um fliperama desconhecido.

Apesar desta abordagem parecer pouquíssimo interessante, não é errado dizer que essa é a sinopse do filme. Errado, porém, é pensar que a mensagem do documentário se resume nisso.

Para contextualizar brevemente:  décadas atrás, mais precisamente em 1984, fliperamas eram os pontos focais de crianças adoradoras de videogames.  Pac-man e Donkey Kong eram verdadeiras máquinas sugadoras de tempo, e o mais interessante disso tudo é que eram jogos simples, de mecânica até repetitiva. O grande desafio se tornou então fazer a maior pontuação e ter seu nome destacado como o melhor. Por fim, o marcador tendo seu limite de pontos em 999.999, assim que se ultrapassasse voltaria ao 0: origem do famoso termo “zerar” um jogo.

Eis que surge Nibbler, um jogo muito semelhante ao “jogo da cobrinha” dos antigos celulares, em um labirinto como de Pac-man. Nibbler não despertou muito interesse como jogo, mas tinha um detalhe que o deixava único: sua pontuação ia até 999.999.999, consequentemente zerá-lo significava fazer um bilhão de pontos.

Imagem do Nibbler

O personagem focal da história é Tim McVey, que na sua infância se depara com o desafio do bilhão e decide encará-lo. Fazer um bilhão de pontos significa mais de 40 horas seguidas de jogo, dois dias ininterruptos onde baldes de gelo para pulsos doloridos e mergulhar a cabeça na torneira para se manter acordado eram instrumentos normais na “maratona”, acompanhada de muitos outros espectadores. Tim vence, faz a marca do bilhão após dois dias de jogo, vai para as capas dos jornais, ganha uma máquina própria do jogo e até a chave da pequena cidade onde vive. Tim fez sua marca e alcançou seu feito.

“Se alguém algum dia tentar me passar, vou derrotá-lo e manter minha marca” 

Muitos anos se passaram e Tim com seus quarenta, enquanto leva sua vida pacata, é confrontado com um fato até então desconhecido: um italiano, Enrico Zanetti, bateu sua marca 25 anos atrás, e até então era o recordista. Isso desperta novamente o interesse de Tim, afinal fez sua promessa, e também de um terceiro personagem nessa história, o canadense Dwayne Richard conhecido como “bad-boy dos games”, que se coloca como um rival em busca do feito e cria uma verdadeira corrida.

O que falei até agora se passa no primeiro terço do filme, e deixo os outros dois terços para quem ainda não viu – e criou interesse até o fim desse artigo – ir até a Netflix e terminar.

Acredito que o mais importante é entender o que Andrew Seklir e Tim Kinzy (diretores do filme) realmente quiseram documentar. Não é um documentário sobre um recorde de um jogo desconhecido sendo quebrado, é um documentário sobre objetivos e perseverança. Vou seguir na linha dos objetivos, que me parece mais interessante, já que vivemos na época do famigerado “empreendedorismo de palco” onde o “nunca desista dos seus sonhos, tente até conseguir” já está amplamente difundido.

Vemos Tim – uma criança que tinha como objetivo alcançar um milhão de pontos e ser o melhor, Enrico – que do outro lado do oceano viu o primeiro em um jornal e se motivou a vencê-lo, e Dwayne que inicialmente queria provar que era melhor e terminou o filme dizendo que queria apenas o bilhão. Detalhe que não houve um registro oficial na época da marca de Enrico, e mesmo assim ele se sentia satisfeito, “o que importa é que eu sei que fiz”, e Tim se sentia derrotado “mesmo que digam que a marca dele não é oficial, ainda me sinto derrotado”. O mesmo jogo, a mesma marca a ser batida, objetivos diferentes.

O jogo é o pretexto encontrado por eles, em sua época, para se sentirem importantes, se sentirem úteis. Já abordei esse assunto em diversos episódios do Expresso Café, como no que falamos sobre Johnny Mad Dog e como a guerra é onde as crianças naquele ambiente encontram motivação (excelente episódio por sinal, indico).

Acredito que todos desenham um objetivo, uma meta a alcançar. Um cargo de diretor, uma vaga na empresa da moda, uma viagem pela Europa, casa própria, mudar o sistema político do país, acabar com a violência contra os animais, paz mundial, entre infinitas outras coisas que cada um, dentro da própria realidade, encontra de ser um indivíduo específico e não mais um. Tim queria ser o recordista de Nibbler, Enrico quis ser quem quebrasse essa marca. Isso se reforça quando Tim, mesmo com quarenta anos, se propõe a jogar dois dias seguidos para recuperar seu posto em um jogo que enquanto era recordista não tinha mais interesse, enquanto Enrico se diz desinteressado e que seu foco agora é artes marciais. Enrico encontrou outra forma de se individualizar enquanto pelo caminho contrário, Tim havia perdido.

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Enrico Zanetti (esq.) e Dwayne Richard (dir.) 

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Ninguém precisa ser o maior especialista em fisionomia para entender que o corpo de quatro décadas não reagiria da mesma forma que reagiu em sua infância. Tim fez um verdadeiro sacrifício de corpo e mente (relatam durante o documentário de casos de alucinações pela extrema repetição e falta de sono) apenas para provar para si mesmo quem ele era. Para ele, “Tim McVey” é sinônimo de “campeão de Nibbler”, e mesmo que seja uma marca extremamente “desinteressante” para o resto do mundo, retirar dele esse posto significa retirar sua própria identidade.

Ouvi em um podcast que a melhor pergunta a se fazer para conhecer alguém é: “qual é a sua paixão?”. Essa pergunta revela muito mais do que saber com o que trabalha, o que estudou, onde mora, etc. Isso porque a pergunta pode ter infinitas respostas, mas cada uma delas revela de forma diferente quem a pessoa é. Ela pode responder “música” da mesma forma que pode responder “Beatles” ou “tocar guitarra”. Apesar do tema em comum, as respostas representam abordagens completamente diferentes. Man vs Snake aborda paixões que incluem jogar Nibble, fazer um bilhão de pontos nele, ou ter a maior pontuação do mundo. Todas envolvem um jogo impopular, de décadas passadas e de desinteresse coletivo, porém de mesma forma envolvem o que cada um tomou para si como objetivo, envolvem o que pra eles era a coisa mais importante do mundo. E o que isso significa, mesmo que tentassem explicar, ninguém além deles vai entender em sua totalidade.

Ficha Técnica 

Nome: Man vs Snake: The Long and Twisted Tale of Nibbler
Diretor: Andrew Seklir e Tim Kinzy
Duração: 1h 32min 
Classificação indicativa: 14 anos
Link na Netflix: Man vs Snake: The Long and Twisted Tale of Nibbler
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