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Nobody Speak: Trials of the Free Press

Nobody Speak é um documentário que apesar de ter claramente uma posição, traz discussões interessantes.

Em sua primeira parte, o filme nos apresenta um caso judicial envolvendo o lutador de luta livre Hulk Hogan (citado no Expresso Café 11, sobe as verdades da luta livre) e o blog Gawker, conhecido pelas opiniões “ácidas”. O site publicou um vídeo contendo o ato sexual do lutador com a esposa de seu amigo, iniciando assim o que o diretor coloca como “um embate entre a invasão de privacidade e a liberdade de imprensa”.

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Primeira Emenda da constituição dos Estados Unidos: “O congresso não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringindo a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações de queixas”.

Lendo, parece óbvio que a intimidade de um indivíduo, mesmo que uma pessoa pública como defendido pelo blog, não pode ser exposta apenas alegando liberdade de imprensa. Mesmo assim, o documentário levanta alguns questionamentos (de uma forma que chega a ser tendenciosa) que torna o caso mais curioso:

  1. A acusação inicial, contra o amigo de Hogan que filmou o ato, foi retirada;
  2. O lutador falava abertamente do vídeo, chegando a comentar o tamanho de seu pênis quando aparece no vídeo com um tom cômico e sem demonstrar qualquer constrangimento quanto à exposição;
  3. Na acusação ao Gawker, foram retiradas as acusações envolvendo problemas de saúde, impedindo assim o seguro do blog cobrir a indenização.

Os três pontos parecem mostrar que o interesse principal da ação é maior em prejudicar os jornalistas do que em realmente recuperar algum dano causado à antiga estrela da luta livre.

Dito isso, com uma busca é descoberto que todos os custos judiciais estavam sendo cobertos por Peter Thiel: milionário do Vale do Silício, co-fundador do PayPal e um alvo de diversas publicações negativas da Gawker que resultaram em declarações públicas sobre blog.

“Acho que eles devem ser descritos como terroristas, não como escritores ou repórteres. Não entendo a psicologia de pessoas que se matam e explodem prédios, e não entendo a de pessoas que passam sua vida sendo raivosas, me parece pouco saudável”. Peter Thiel

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O filme aborda a partir daí o perigo que os milionários estão exercendo em cima da mídia. Conseguem manipular ou acabar com os veículos que não lhe agradam apenas usando seu dinheiro e influência. Para reforçar isso é mostrado um segundo caso, mais interessante e menos controverso, da compra de um jornal importante por investidores anônimos.

O assunto mídia contra milionários é discutido muito bem durante o filme, de forma que deixo para quem se interessou pelo tema, assista clicando aqui.

Mas aproveito para voltar a um questionamento que acho pouco aprofundado no filme: o caso do vídeo íntimo exposto. A maior parte do tempo esse caso é utilizado mais para investigar “o que há por trás disso tudo”, porém senti falta de uma abordagem um pouco mais sóbria do próprio caso e suas implicações. Um veículo da mídia, no cenário apresentado, poderia então publicar um vídeo que invade a privacidade de um indivíduo caso ele seja uma figura pública, pela liberdade de imprensa fornecida pela primeira emenda?

Mas o que define então um veículo da mídia e uma figura pública? Se alguém do Expressário resolver publicar aqui um “revenge porn” do antigo relacionamento, poderíamos nos assumir mídia para validar o ato? Não, pois a pessoa exposta não é pública? E se fosse alguém com mais de 20 mil seguidores no Instagram? Já pode ser considerada? Quando você começa a validar a aplicação desse tipo de lei na vida atual, tudo fica mais nebuloso. O que vai definir se um site qualquer é mídia, e o que vai definir se uma pessoa é ou não de interesse público? Mais além: a intimidade de um indivíduo ser “de interesse do seu público” é realmente suficiente para que essa pessoa não a tenha mais?

No fim, não é difícil acreditar que Hulk Hogan foi uma peça no jogo de interesses de Peter Thiel, porém isso não deveria ser suficiente para que o famoso lutador não tivesse suas razões pessoais para brigar por seus direitos.

Ficha Técnica

Nome: Nobody Speak: Trials of the Free Press
Diretor: Brian Knappenberger
Duração: 1h 35min
Classificação indicativa: 14 anos
Ano de lançamento: 2017
Link na Netflix: Nobody Speak: Trials of the Free Press
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